Terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

NATAL: SMS'S PARA MIM NÃO, OBRIGADINHO

1. Oh, Não! Vem aí o Natal!! Lembram-se? É aquela época do ano em que somos todos iguais, todos muito amigos uns dos outros, em que se multiplicam concertos, leilões, quermesses, ‘eventos’ de solidariedade com tias que se desenterram dos sótãos nesta altura e pobrezinhos a preceito, coitadinhos, empurrados para um palco onde meninos enfiados em fatos engomados lhes entregam guloseimas inúteis e votos de prosperidades com beijos contra-feitos. Lá fora não há neve. Infelizmente. Caramba, já viram as boas filmagens que isto proporcionava? Assim uma espécie de “white christmas” à portuguesa onde as charretes da 5º avenida eram trocadas pelos fiats puntos da turba. Só na Serra da Estrela há neve a colorir o Natal dos mais pobres, esses sortudos... Que injustiça! É que aí não chegam estes beneméritos, estes benfazejos realizadores de ‘eventos’ porque não chegam as televisões. Se soubessem o trabalhão que dá reunir uma equipe de filmagens para reportar a pobreza da raia ou as dificuldades da vida na Beira-Interior, os infortunados migravam todos a Sul na ânsia de uma chávena de chá, duma bolachinha natalícia, e para nos pouparem a nós, citadinos sentados, a sofreguidão de importar pobres para encher os Coliseus em mais um concerto de apoio a uma ‘causa’ qualquer. Ser pobre está bem. Mas por favor, se quer que sejam ‘solidários’ consigo, vá ser pobre para Lisboa ou Porto. Os jornais não se vendem com a sua dor se ela não tiver uma pitada da Cascais ou fozeira. É que, enquanto se vai fazer a ‘reportagem’ que há-de fazer chorar os portugueses, sempre se almoça na linha um bom pregado-ao-sal. A bem dizer, nesta questão de centralidade, até nem estamos assim tão desequilibrados: é tal a concentração nas duas maiores cidades portuguesas de meios mediáticos ou mediúnicos, que também aí se deveria encontrar a maioria dos pobres de Portugal. Contudo, a pobreza é tão democrática que ignora o protocolo e instala-se  de igual forma por todo o país. Vá-se lá entender isto. O sonho dos inventores de ‘eventos’ era poder concentrar tudo num gigantesco piquenicão de inverno ali ao Parque das Nações com directos a toda a hora e entrevistadores instalados pelas esquinas em busca da melhor oportunidade para filmar a lágrima alheia. Ah…Essa lágrima que faz furor na TV! Esse grande-plano que interrompe novelas e concursos e nos mostra a ruga húmida, fazendo-nos sentir mais próximos de sermos bons, nós que somos uns estupores de primeira apanha e que durante o ano nos marimbámos para o desemprego, a solidão, a descrença dos outros.

 

2. Mas pior, muito pior do que esta ‘bondade’ que subitamente invade o país em actos públicos, são as inefáveis mensagens de telemóvel, as sms’s, que nos entopem a caixa postal, nos ensarilham os dedos na imbecil tentativa de resposta, e que parecem não mais acabar tal é o frenesim com que o toque de “mensagem recebida” nos ataca noite e dia sem quartel, quando dormimos, fazemos necessidades ou tentamos fazer uma chamada realmente importante. É que quando a Josefina da contabilidade, a quem demos o número com intenções menos natalícias e com quem apenas trocámos um tímido olhar em Março, nos escreve ‘se um dia te sentires sozinho/ olha para o céu/ a estrela mais cintilante/ serei eu a velar por ti/ feliz natal e bom ano novo/ ass: Josefa’, então é porque já o nosso telemóvel se tornou numa fonte de inesgotáveis maravilhas da estação, umas sem cedilhas, outras sem acentos, outras apenas abreviaturas, num fervor poético que deixaria corado o mais ínvio dos estribilhistas Pimba.  Por mim, suprimia o envio de sms’s no Natal, só as permitindo no regresso da Primavera para as voltar a interromper na Páscoa, altura em que o senhor Alfredo do Talho, a quem um dia encomendámos um quilo de carne da vazia, nos pretende recrutar com ‘nsta data k pasa/ p si e familia/ os comprimentos do amigo/ k lhe dsja pascoa feliz’. Por isso, peço a todos que me lêem, o imenso favor de me ignorarem na vossa generosa gratidão festiva, na certeza de que vos rogarei a maior das pragas se receber uma só palavra que seja sobre votos de uma feliz estação. Ela será tão mais feliz quanto mais em silêncio se mantiver essa maquineta infernal que trago no bolso e que, em natais passados, já pagou as favas contra uma parede ou imerso na banheira onde tentava replicar ao enésimo ‘poema’ fraternal.

 

3. E que dizer do Ano-Novo, quando, exactamente à meia-noite, o bip-bip-bip matraqueador ensurdece todos os que se encontram em celebração de despedida e os faz agarrar-se ao famigerado aparelho, ignorando tudo à volta, como se estivéssemos numa colónia de autistas cujo único meio de falar ao mundo fosse um conjunto de botõezinhos, com os polegares a dar, a dar, para no fim não dizermos absolutamente nada? Proponho então que se institua uma mensagem universal, que se mande uma vez na vida, uma só vez, e que valha para todo o sempre: ‘Felicidades por teres nascido/ Felizes Aniversários/ Natais/ Anos-Novos/ Páscoas & Afins/ Esta mensagem não carece de resposta/ Agradecido’. É que, no meu caso particular, quando recebo uma mensagenzinha natalícia tendo a acautelar outras que aí venham em festas vindouras e respondo: ‘Boas Frestas e um Feliz Anus Novo’. Remédio santo.

 

Pedro Abrunhosa

Porto, 1 de Dezembro, 2009

publicado por Um_Tuga_no_Mundo às 17:05
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